A adolescência é uma fase cheia de mudanças, e entender o comportamento dos jovens pode ser um desafio. É muito comum ouvir pais e educadores dizendo que os adolescentes acham “tudo chato”, se afastam da família e parecem desinteressados pela escola. Mas por que isso acontece?
O que acontece no cérebro dos adolescentes?
Do ponto de vista neurológico, o cérebro dos adolescentes está passando por uma grande transformação. A parte que chamamos de córtex pré-frontal, que ajuda a tomar decisões, controlar impulsos e planejar o futuro, ainda não está totalmente desenvolvida. Isso faz com que eles tenham dificuldade em ver a importância de certas responsabilidades, como estudar, e prefiram atividades que tragam satisfação imediata.
Além disso, o sistema límbico, que é responsável pelas emoções e pelo prazer, está a todo vapor nessa fase. Ou seja, o adolescente busca intensamente novas experiências e recompensas rápidas, como sair com amigos ou se entreter com jogos e redes sociais. Coisas mais rotineiras, como a escola ou passar tempo com a família, acabam ficando em segundo plano porque não oferecem a mesma “emoção” que eles estão buscando.
A visão de Jean Piaget
O psicólogo Jean Piaget também ajuda a entender essa fase. Para ele, os adolescentes estão no estágio chamado “operacional formal”, que é quando começam a pensar de maneira mais abstrata e crítica. Isso significa que eles não aceitam mais as coisas do jeito que são. Eles começam a questionar e tentar entender por que precisam fazer algo. É aí que o desinteresse pela escola aparece, porque muitas vezes eles não enxergam como o que estão aprendendo pode ser útil para suas vidas. Querem desafios mais complexos, mas ao mesmo tempo, se frustram quando não encontram isso nas aulas.
O que diz a psicanálise?
Já na visão psicanalítica de Jacques Lacan, a adolescência é uma fase em que o jovem está tentando se afastar do controle dos pais para construir sua própria identidade. Nesse processo, a escola e a família passam a ser vistas como símbolos de autoridade, que eles tentam evitar. Esse comportamento não é apenas rebeldia, mas uma tentativa de descobrir quem realmente são, sem as influências que sempre os cercaram.
A perspectiva da neuropsicopedagogia
A neuropsicopedagogia, que une neurociência e educação, também traz uma explicação interessante. Como o cérebro do adolescente está sempre em busca de novidades, a escola tradicional, com seu ritmo mais lento e conteúdos muitas vezes abstratos, acaba não sendo tão estimulante. Além disso, a vida social ganha muita importância nessa fase, então eles preferem estar com os amigos, onde se sentem mais compreendidos e à vontade.
O que dizem as mães e avós?
As mães e avós, com sua sabedoria prática, também têm muito a dizer sobre isso. Elas sabem que, durante a adolescência, os jovens estão em busca de independência. Eles querem se distanciar da família, que antes era o centro do mundo deles, para explorar novas experiências e criar suas próprias regras. Isso não significa que deixaram de amar a família, mas que estão tentando provar a si mesmos que podem se virar sozinhos, que podem tomar suas próprias decisões.
A escola, por outro lado, muitas vezes não oferece a eles a emoção e o dinamismo que estão buscando. Como o futuro parece distante, o que é ensinado ali parece pouco relevante para o que eles vivem no presente.
A adolescência é uma fase cheia de desafios e transformações, tanto para os jovens quanto para quem está à volta deles. O desinteresse pela escola e o afastamento da família fazem parte desse processo natural de crescimento. O cérebro deles está mudando, suas emoções estão mais intensas, e eles estão começando a questionar o mundo ao seu redor. Entender isso nos ajuda a ser mais pacientes e apoiar os adolescentes enquanto eles passam por essa fase de descobertas.
O importante é lembrar que, apesar de parecerem distantes, eles ainda precisam do apoio e do carinho dos pais, educadores e da família. Criar um ambiente que equilibre o respeito pela autonomia deles e a orientação necessária pode ajudar a atravessar essa fase de forma mais tranquila.
Referências
GIEDD, J. N. The Amazing Teen Brain. Scientific American, 2015.
LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.
PIAGET, J. A epistemologia genética. São Paulo: Martins Fontes, 1975.
VALLE, S. A. Neurociência e Educação: O Cérebro no Processo de Aprendizagem. Porto Alegre: Penso, 2021.

